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Bernoulli - Colégio
Reflexão

Processos criativos e o desenvolvimento de habilidades na educação

A criatividade é uma característica inerente à natureza humana e que se manifesta desde a infância, por meio de traços como a curiosidade, imaginação e espontaneidade, inerentes às crianças.

Por: Bernoulli | Em: 20/06/2023

Qualquer pessoa pode ser criativa? E por que não poderia?! Como dito anteriormente, a BNCC (Base Nacional Comum Curricular) tem como uma de suas competências gerais o desenvolvimento do pensamento científico crítico e criativo. Hoje, entende-se que não é possível desassociar o desenvolvimento das habilidades às competências gerais, uma vez que essa evolução é uma das maneiras de assegurar o desenvolvimento das competências durante toda a vida escolar do estudante. Dessa forma, considerando a competência evidenciada, percebe-se que os processos criativos devem estar presentes no progresso dos estudantes ao longo da Educação Básica.

 

Considere o seguinte contexto e atividade propostas:

 

Os estudantes começam a estudar o planeta Terra. Aprendem que uma das maneiras de se fazer a sua representação é por meio do mapa-múndi. A partir desse momento, o(a) professor(a) questiona: se o planeta Terra tem a forma de um geóide, por que o representamos por meio de um planisfério?

 

Na sequência, explica o que é um geóide – um corpo geométrico de superfície irregular, quase esférico – e solicita que cada estudante faça a sua representação do mapa-múndi, utilizando os recursos de sua preferência. A intenção é compreender como cada estudante “vê” a Terra. Como solução para o problema, os estudantes elaboram seu próprio mapa-múndi, acompanhado de um texto explicativo do motivo de fazerem uma representação plana – planisfério – em vez de um sólido geométrico. Dentre as respostas e produções da turma, destacamos três: um estudante faz um desenho apenas com figuras planas (quadrados, círculos e triângulos) e responde que por meio da ilustração plana é mais fácil de compreender e fazer o que seria uma geóide; outro colega faz sua representação por meio de recortes de revista e responde que a representação plana “cabe” dentro do livro; e um terceiro estudante resolve fazer uma representação palpável do mapa-múndi com materiais reciclados e embalagens utilizadas em sua casa, posicionados e colados em uma cartolina até compor e representar todos os continentes e, como resposta, afirma que a representação plana facilita a visão do todo.

 

Em outra aula, o(a) professor(a) dá prosseguimento à atividade, explicando a relação das representações planas e as diferentes projeções existentes, destacando as possíveis distorções que acontecem, justamente por ser uma transposição de um sólido para um plano. Nesse momento de explicação, o(a) professor(a) faz anotações em seu caderno pessoal de como explorar a criatividade dos estudantes e suas próprias criações favoreceram o desenvolvimento das habilidades relacionadas a esse objeto de conhecimento. O(A) professor(a) agradece as criações e a partilha dos estudantes, destacando que não há uma construção mais adequada que outra entre os mapas-múndi, uma vez que, para os produtos elaborados, foram pensados processos distintos, partindo da criatividade e da experiência de cada um. Além disso, as respostas fornecidas para o questionamento inicial foram muito importantes para entender qual o conhecimento prévio que eles (os estudantes) tinham sobre o que seria estudado.

 

Diante dessa situação, percebemos como o estímulo para o fazer criativo é importante. Ser criativo não é só imaginar e propor hipóteses, mas é também estar atento à viabilidade de suas sugestões diante o contexto apresentado. O exemplo em destaque pode não fazer parte do contexto de todos, mas quando o apresentamos, trazemos um olhar reflexivo que nos leva à imaginação, e, de maneira criativa, nos estimula a pensarmos em alguma solução para resolver a situação proposta.

 

Muitas vezes, as pessoas associam a resolução de diferentes desafios, ou melhor, a resolução de problemas, unicamente à Matemática ou a componentes que estejam relacionados a ciências exatas, como Física ou Química. Entretanto, a resolução de problemas está além de disciplinas ou matérias específicas. Para se resolver um problema, é preciso, primeiro, que a pessoa esteja diante uma situação-problema a qual definiremos, independentemente do componente, como:

 

[…] um desafio apresentado no item que reporta o participante do teste a um contexto reflexivo e instiga-o a tomar decisões, o que requer um trabalho intelectual capaz de mobilizar seus recursos cognitivos e operações mentais. Uma situação-problema deve estar contextualizada de maneira que permita ao participante aproveitar e incorporar situações vivenciadas e valorizadas no contexto em que se originam para aproximar os temas escolares da realidade extraescolar (BRASIL, 2010).

 

A partir do momento em que a pessoa é exposta a situações-problema, ou seja, situações vivenciadas que as levam a um contexto reflexivo e que as instigam à tomada de decisões, há motivação para resolução da situação, uma vez que o problema faz sentido. Dessa maneira, as pessoas se permitem mais o fazer criativo e o desenvolvimento de novas habilidades, porque há a vontade de solução do problema. 

 

Como visto no exemplo relacionado ao questionamento sobre a representação do planeta Terra por meio de um planisfério e a criação do mapa-múndi pelos estudantes, para um mesmo problema não há uma única maneira certa de se resolver, mas é importante se permitir ser criativo e explorar diferentes maneiras de agir para chegar a sua resolução, ou seja, se permitir ser agente de processos criativos.

 

Não há um processo que seja mais criativo do que outro, uma vez que essas escolhas são pessoais. Uma criação pode ser considerada mais inovadora do que outra a depender das vivências anteriores de quem avalia. De qualquer maneira, é importante se permitir pensar em soluções além das costumeiras. Afinal, as maneiras como cada docente leciona e a aprendizagem acontece são livres.

 

Haverá pessoas que afirmarão que não são criativas. Isso gera uma reflexão: não são ou não se permitem ser? Julia Cameron reforça em seu livro “O caminho do artista” (publicado pela Sextante em 2017) que suas aulas de criatividade estão voltadas para o ensinar pessoas a se permitirem ser criativas e não a um processo criativo específico. Dessa maneira, qualquer pessoa pode ser criativa.

 

Assim, como docente, é importante o incentivo de nossos estudantes no fazer criativo. Além de encorajá-los a serem criativos, é necessário ajudá- los a compreender que qualquer pessoa pode ser criativa. Esse incentivo favorecerá o desenvolvimento integral deles, não se restringindo apenas às aprendizagens escolares. Entender que não precisam saber uma única maneira de chegar a respostas é fugir de processos mecânicos e memorização, e compreender que podem inovar e ir além do que até eles próprios imaginavam.

 

Nascemos criativos?

 

A questão da criatividade inata tem sido alvo de extensa pesquisa e análise em diversos campos acadêmicos. Estudos realizados na área da psicologia do desenvolvimento têm contribuído significativamente para compreendermos a natureza da criatividade e sua presença desde os primeiros anos de vida (AMABILE, 1996). Essas pesquisas têm revelado que a criatividade é uma característica inerente à natureza humana e que se manifesta desde a infância, por meio de traços como a curiosidade, imaginação e espontaneidade, inerentes às crianças.

 

No estágio inicial do desenvolvimento da criatividade, a brincadeira está intimamente relacionada a esse processo. Crianças pequenas já conseguem se envolver em brincadeiras imaginativas, fazendo conexões de aprendizagem. É no envolvimento ativo em diferentes formas de brincadeira, como brincadeiras de faz de conta e brincadeiras dirigidas pelas próprias crianças, que o desenvolvimento da criatividade geralmente se inicia. A criatividade se manifesta como resultado de interpretações novas e pessoalmente significativas desse processo lúdico. Portanto, desde cedo, as crianças demonstram um imenso potencial criativo.

 

O modo das crianças interagir com o mundo, a exploração de diferentes perspectivas e suas ideias originais refletem a presença intrínseca da criatividade em suas mentes em desenvolvimento. Contudo, é fundamental compreender que, embora a criatividade seja inata, seu desenvolvimento e expressão plenos são influenciados por diversos fatores ao longo da vida. Estímulos, experiências e oportunidades desempenham um papel fundamental na expansão e aprimoramento da criatividade. Ambientes enriquecedores, que valorizam a exploração, a experimentação e a livre expressão de ideias, fornecem um terreno fértil para que o potencial criativo das pessoas floresça.

 

As vivências, o acesso a diferentes formas de conhecimento, a interação com pessoas criativas e o encorajamento para que os indivíduos alcancem seus interesses têm um papel crucial no desenvolvimento da criatividade. A educação desempenha um papel-chave no cultivo da criatividade, sendo um espaço privilegiado para incentivar o pensamento inovador e a expressão criativa dos estudantes. Tanto a valorização da criatividade no ambiente educacional quanto o conhecimento e a habilidade de encontrar soluções para problemas possibilitam o desenvolvimento integral dos estudantes, preparando-os para enfrentar os desafios do mundo contemporâneo com inventividade e visão de futuro, características essenciais para o progresso e a inovação em todas as áreas da sociedade.

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